SANSARA FROM HELL

Estar condicionado. Repetir o que eu sou.
Aquilo que a dispersão na mímese forjou.
Fecho os olhos e procuro dentro de mim
“eu? eu? eu?”
Não, dentro do escuro não estou.
Abro os olhos. Procuro fora de mim.
Luz.
Formas.
Encontro Imagens.

Acho uma que creio que sou.
Reflexo na prata polida.
Então esse ai sou eu?
Algo, talvez eu, pensa dentro do que penso ser eu
“Invertido sou ou só estou?”
Há um ano outro era o reflexo.
Quem era? Outro eu? Outro alguém?
Mas condicionado (confusão!) sempre repito o que sou.
Aquele era ou não era eu?

Já dizia o patriarca analfabeto Zen
que o corpo é a árvore,
que a mente é a flor.

Seria a semente esse tal de “eu sou”?
Se for, que algum pássaro a leve
e me liberte de mim.
-guto novo
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  • Posted 8 months ago
  • September 24th, 2012

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Manoel de Barros

abrapira:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: ”Eu escuto a cor dos passarinhos”.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia, que é a voz do poeta, que é a voz de fazer
nascimentos –
o verbo tem que pegar delírio.

via letheatredekahmala

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  • Posted 8 months ago
  • September 22nd, 2012

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‘Paraibano’, Hildeberto Barbosa Filho

abrapira:

Eu sou qualquer coisa de intermédio
entre o câncer e o milagre.
Vezes sou montanha, vezes sou planície,
e não tenho rio nas minhas aldeias.
Entre Europa e África, prefiro o sonho,
que não me levara a lugar nenhum.
Nem mesmo sou o meu torrão natal.
Dizer que sou múltiplo nos lajedos do sonho
também não me retrata. Eu sou aquele
que não poderá ser: pedras e plumas,
isto e aquilo, e, enquanto sonho,
vive o mundo a luxúria das águas.

via oxeente

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  • Posted 8 months ago
  • September 22nd, 2012

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indefeso

edgarsemedo:

ele tornou-se indefeso sem mãos para colocar em frente da cara, desde o momento em que no meio de um par de lençóis pretos lhe confessou a falta que ela lhe fazia no vazio de todos os dias

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  • Posted 1 year ago
  • November 18th, 2011

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SOBRE O TAO, FICÇÕES RELIGIOSAS E O VÍCIO AOS CINCO SENTIDOS.

Por Rev. Delphinus Lightbubble.

Existe “céu”? Existe paraíso? Existem terras de seres auto-conscientes se comunicando, trocando informação após a morte física?

Para o Taoísmo existe (Kunlun), mas apenas para os imortais. Apenas quem consegue realizar o Tao usufrui  de autoconsciência após a morte física. Aqueles que não realizam o Tao têm seu conglomerado de informação, a consciência, desmembrada e reciclada. E isso não é ruim. Pois é da natureza da dinâmica do céu (mente em seu habitat no centro do cérebro) e da terra (corpo, principalmente intestinos, área do dan tien inferior). É uma existência difícil de conceber, pois é imaterial, uma auto-consciência sem escravização à forma.

É o oposto da imortalidade sonhada pelos transhumanistas, que é uma imortalidade material, para eles a única realidade existente, pois não há nada além dos cinco sentidos para o homem secular. O que não é percebido e quantificado pelas máquinas da ciência (extensões dos cinco sentidos) não existe. E ponto. O que é em si normal, para eles, aos buscarem, tragicamente, dar permanência (o idílico mundo platônico das formas perfeitas) à impermanência das formas no fluxo material da coisa toda. Mesmo quando afirmam, niilistas, que não há sentido, que tudo, a existência, é um grande acidente cósmico darwinista -conceito que até Darwin rejeitaria!

Já para o Taoísmo não, tudo é fruto de uma dinâmica impessoal entre o material e o imaterial. Tudo provém do vazio, com o objetivo de retro-alimentar o vazio. Mas o vazio não é vazio. O vazio (wuji) é uma porta, “sem forma”, assimétrica, logo impossível de ser quantificada por uma ciência presa ao conceito de anel comutativo!, a fêmea misteriosa, que dá origem ao mundo da forma suprema (taiji/percepção do mundo material). Apenas quem a atravessa conhece as respostas, somente quem a atravessa atinge a imortalidade, a existência auto-consciente após a morte, segundo as escrituras taoístas.

Qualquer explicação sobre o que é o pós-morte feita por qualquer um é heresia para os taoístas, pois está além da lógica e processos de linguagem a que nos prendemos, e é algo que só é compreendido por quem a ela, imortalidade, chega. E os imortais se resguardam dos que só sabem converter shen (luz/energia eletromagnética) em jing (matéria/energia eletroquímica).

As religiões organizadas, todas elas, minhas pesquisas me levam a crer, nasceram de místicos que experimentaram, mas falharam, uma aproximação com esse momento de transição entre a existência material e a existência imaterial auto-consciente. Dai, ao falharem, dedicarem uma vida a descrever, a interpretar o que sentiram, e com isso tentar segurar aquela sensação de modo ilusório.

Logo, as definições e alegorias das religiões organizadas nada mais são que heresias para o taoísta praticante. Hoje qualquer um se diz taoísta. Existe até os taoístas academicos! filosóficos! como os religiosos. Quando o que define o taoísta é a prática, no mínimo, do hsiao chou t´ien, o circuito do pequeno universo, e, aos mais dedicados, a prática do circuito do pequeno universo dentro do contexto maior da alquimia interna, que classifico como alquimia fisiológica.

Não a toa mesmo hoje, com a disseminação dos textos herméticos do taoísmo, os grupos autênticos continuam fechados e secretivos, até mais que os mais secretivos grupos dentro do judaísmo.

E para fechar esse pequeno argumento, deixo as palavras de um taoísta real, Lu K´uan Yu: ” Todas escrituras taoístas, apesar da diversidade dos ensinamentos, não vão além da natureza essencial e da vida eterna. Discutir qualquer coisa além leva a especulações que enganam e confundem os ignorantes. Você pode falar dos modos que quiser mas se você não conhece os segredos da transformação da força generativa em vitalidade, da vitalidade em espírito e o retorno do espírito ao grande vazio sem forma, você somente irá formular heresias. Se você quer atingir a imortalidade você deve começar por cultivar a natureza essencial e a vida eterna, as quais irão com certeza levar a realizar seu objetivo”

Há experiências, vale lembrar, que a linguagem não pode conter. Como a incompletude godeliana ensina, como o limite dogmático de nossa matemática ao anel comutativo e a necessidade de converger tudo que for divergente ( como nas equações de maxwell para eletromagnetismo) em convergente para manipular a natureza também demonstra. O silencio e a humildade da invisibilidade são juntas a maior ferramenta do alquimista taoísta, e talvez, de todos alquimistas, dai o mistério que os cercam.

Aos hereges restam as sobras, os impermanentes prazeres dos cinco sentidos e o sofrimento, o comma, que estes guardam em sua impermanência. E não há problema com isso. Nem todos os seres têm utilidade para a imortalidade, por mais que todos, paradoxalmente, desgostem da morte. E usando termos da alegoria gnóstica, muitos ao demiurgo para manter o Kenoma, poucos à sofia para expandir o infinito Pleroma. Tudo que é material tem começo e fim. Tudo que é imaterial é mistério ao que não se realiza. Afinal, como já diziam as más línguas no templo do deus grego que virava golfinho, conheça a si mesmo e os deuses e o universo se revelarão e contigo dançarão, provavelmente em Kunlun! :)

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Há certas áreas de sentimentos e realidade -ou irrealidade ou íntimo anseio, chame como quiser - que são notavelmente inacessíveis via palavras. Música pode alcançar essas áreas. Pintura pode chegar a elas. Formas de expressão não-verbais podem. Mas palavras são terríveis camisas-de-força. É interessante como muitos prisioneiros dessas camisas-de-força ressentem por elas serem afrouxadas ou retiradas. Há um lado na personalidade humana que de algum modo sente que onde quer que a verdade cósmica possa estar, ela não está em A, B, C, D. Ela estende-se em algum lugar nos aspectos misteriosos, desconhecidos do pensamento e vida e experiência. O Homem sempre respondeu a ela. Religião, mitologia, alegorias -sempre foi uma das cordas mais receptivas no homem

Stanley Kubrick, o alquimista da imagem que anda, defendendo o fato de 2001 ter só 46 minutos de dialogos contra 113 minutos de “silencio”.

Potlatch tirou seu nome da palavra dos índios norte-americanos para uma forma pré-comercial de circulação de bens, fundada na reciprocidade de presentes suntuosos. Os bens não-vendíveis que esta livre comunicação podia distribuir, isto é, desejos e problemas interditos; e sua profundidade para os outros podia por si só constituir, em troca, um presente. Isto explica por que o intercâmbio de experiências no Potlatch era constantemente compensado como uma troca de insultos, o tipo de insultos que devemos para aqueles cuja idéia de vida é menor que a nossa própria

 -Guy Debord

People are afraid of themselves, of their own reality; their feelings most of all. People talk about how great love is, but that’s bullshit. Love hurts. Feelings are disturbing. People are taught that pain is evil and dangerous. How can they deal with love if they’re afraid to feel? Pain is meant to wake us up. People try to hide their pain. But they’re wrong. Pain is something to carry, like a radio. You feel your strength in the experience of pain. It’s all in how you carry it. That’s what matters. Pain is a feeling. Your feelings are a part of you. Your own reality. If you feel ashamed of them, and hide them, you’re letting society destroy your reality. You should stand up for your right to feel your pain.

Jim Morrison (via pax-caelestis)

(Source: moontravelers, via anandama)

  • Posted 1 year ago
  • October 17th, 2011

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Mini-Biografia Instintiva v.023

Era uma vez um lindo e néscio e lerdo e rapaz,
de longas e encaracoladas madeixas,
com barba ruiva capaz de invejar
a deusa solar quando vestindo a cor do cio.

Andava nu, com tudo a balançar, sozinho,
sem sombra até,
pela mata virgem.
Ali ouvia, ali traduzia a linguagem dos pássaros.

Encantado por conhecer o segredo alquímico das aves,
desligou-se do caminho.
Apagou o horizonte.
E seduzido pelo céu, ali topou o dedão,
do pé esquerdo, em uma pedra direita e sólida,
calcificando a visão interior.

Gritou,
tropeçou,
pulou,
caiu.

Bateu a cabeça,
atrito na nuca, na altura daquele osso,
o Atlas, que segura e sustenta o globo da mente,
e no desmaio viu lao tsé.
E em silencio, ao velho sábio ouviu.

colecionar fatos, impressões, dados, teorias, etc,
nos
dá conhecimento.
Eliminar fatos, impressões, dados, teorias, etc,
nos dá a liberdade da sabedoria”

“sacou neném?”

E interpretando o velho sábio,
ao acordar, ainda, claro, onde caiu,
afinal, néscio ontem, néscio hoje, néscio amanhã,
o lindo e néscio jovem dali não mais se levantou.


Enraizou-se.
Virou árvore e assim,
enfincado na terra, e balançando no ar,
realizou o matrimônio
entre o céu e a terra,
descobrindo o mais óbvio e incrível dos segredos.

                                                             -Guto Novo

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